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domingo, 16 de junho de 2019

Última aula

Assistindo em sono profundo
À lição que nunca se esquece
Procuro a não linearidade
Como se a tivesse que aprender

Se me custa, sobra mais
Sonho em ver a mestria
Pequena e quase única
Inesquecível e inevitável

Pelo meio
O orgulho do enfim
E um novo príncipio

Baía do cansaço

As águas límpidas escondem o fôlego artificial de quem mergulha
Sabemos que sobem mas não como nem onde
Será que emergem?
Será que a caverna os engole?

Uma dor fantasma assola o silêncio da adrenalina
Que, ao longo de braçadas, teima em se reduzir a nada
Será possível sobreviver sem trincar o suor?
Será que o sangue ainda circula entre mim e o azul?

Ao fundo, o mar escondido na arrogância do desespero
Descobre qualquer um na sua pertença disfarçada

domingo, 1 de outubro de 2017

Lembrança de dois

Por dias cinzentos e mares azuis turquesa
Navegam dois, remando em sincronia
Com o sorriso diário inesgotável
E a vontade - sem qualquer esforço - de ouvir

Sobem paredes por quem criaram
Sempre com um ombro profundo e amigo
Em que nos erguemos, orgulhosos
E tentamos retornar a infinita dádiva

Guardamos connosco, para perdurar
O cheiro completo que emana do cuidado
O toque suave do olhar atento

Não é só uma memória mas uma vivência
Essa lembrança de dois
Vós

sábado, 5 de novembro de 2016

Juventude no fim

Volvidos anos, mas poucos,

Um túnel assombroso quebra
Fazendo tremer todo o pedaço escuro de vida
Sobra a gíria de momentos que já passaram
E que incomodam até quem possa ver

Olho pela parede, do chão até ao tecto
E vejo que o branco já não é duro
Duvido se cairás ou se a tua força vem das raízes

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Tríptico desorganizado

Suster a arrogância em ti
Traz o caos a estado líquido

Em mim, mas por ti

O atrevimento do sorriso falso
Pela suave e esbranquiçada mentira
Não perdoa a imodéstia que me arrepia

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Um a um

As pedras da calçada que escorrega
Soltam-se e ficam à mercê de um pé
Que ao ser meu, pontapeio e aí se enrolam

Todas se vão e não foi isso, nada disso
Que te passei em jeito de lição

É que por mim não aprendo
Mas por ti me surpreendo

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Típico

Tipicamente escrevo palavaras
Normalmente destilo sinónimos
Invariavelmente descoordeno (as mãos)

Por norma, rodopio sobre o que balbucio
E não articulo mais do que preciso
Para dentro ficam as vozes
Para fora os silêncios

E o fogo que consome cresce
Daquele que arde e se vê

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Onde está?

Levantem-se e caminhem!
Porque estão quietos?
Há tantos e muitos à vossa volta

Não preciso de todos,
Mas lembro-me que no fundo do saco
Só passava percebido um

Onde está?

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Entre montes e montanhas

Pelo vale do quotidiano, surge o sol atrás das montanhas
Vai subindo, lentamente, como pestanas ao acordar
Ritmado, curva o céu
E aí o agarro

Se me escapas, bicho!
Atinges o pico onde marco o ponto
E recomeças o movimento

Descendo, acompanho-o livre pelos montes do horizonte
Imito sem sucesso a sua cor com um sorriso amarelo
O ocaso vem e também eu me desvaneço

Volta, vem, liberta-me!

Se me vou

Se me canso, não descanso enquanto não me vejo
Se me vejo, não quero nada que não tudo
Se me tenho, percorro todos os caminhos até encontrar o inexplorado

Sentado à lareira, o fogo consome o ar e a terra
Bebo da sua vontade e sofro do seu ardor

E por aí, me vou

domingo, 27 de dezembro de 2015

Ao fundo

O legado de deixar uma herança
Suplanta a vontade de presentear-me com um futuro
Incomoda, inquieta e provoca a insónia
Do incauto sonhador de pequenos passos

As pernas que me movem sujam-se com remendos
De pedaços de vida - morta, lutadora mas esquecida

Os bocados, os deixo; estendei a mão, aí estão!

Fragmentos

É mais uma peça que se encaixa no horizonte
Que ao fundo se desfaz e reconstrói em tempos infinitesimais

É mais um, o que nunca esqueço,
Que me assola e redescubro

Vagueio pelo tempo, sem saber que é também espaço
O que ocupo é o que me limita, creio
Mas sei que o que me abraça é só o que perdura

As escolhas que fazes

Se há pedaços de fio que queimam ao ver,
São os que imagino que incendeies sem temer
Com mestria julgas a tua própria indecisão
Sem saber nunca se essa é a minha opinião

Irritas e afagas com as mesmas poucas palavras que proferes
Entranhas cérebro dentro nada a não ser o que queres
Mas será que desejas ou apenas cobiças?
É que apenas vejo inveja, medo e as minhas mãos submissas

Escolhes e fazes as escolhas que fazes

Junção

Pequenas e obtusas
As operações sucedem-se na frente escura do sono
O sonho bate à parte, mas não entra;
Soma-se uma pedra a um cordel
E divide-se o novelo do leito

Venha, a multiplicação
Dos dias e das magias
Subtrairei pela bondade se por aí houver vontade

domingo, 30 de agosto de 2015

Nota pequena

À margem do texto quantitativamente esfuziante
Mas sem teor nem conteúdo
Sobra, amorfa, a ortografia

Eis que surge a nota mínima
De trocas sem valor nem ardor
Canto de folha, pedaço de papel
Conténs o mundo, destróis babel

Assim falas tu

A raiz é a mesma mas sobra espaço
Para no pouco para e no menos pouco
Se sentir a distância da infância
Foram as mesmas e já não são
Ganharam-se avisos de fortes não
Estamos perto e longe
(quem sabe em diferentes melancolias)
Com e sem barreiras
(porventura em distintas categorias)

Quando digo eu que tu falas
Falo que não expressas nem confias
Cai, vem! Eu dobro; tu soltas-te?

Nunca contente, jamais feliz

O pendor não pára de aumentar
Pela insegurança que evapora do teu ser
A falta de apoio brilha com estrondo
E a incerteza sublinha letras tortas

Se escreves, não lês
Se páras, não vês
Se ouves, não escutas
Se vives, não lutas

Não é tristeza nem frieza
São ondas de oceano revolto
Que te apanham desprevenida embora consciente
Do que és e já não queres ser
Sem nunca vir a saber o que é viver

Retiro de diferenças

A subtileza da paz no mundo interior de cada um
Nasce no rio que brota da montanha inigualavelmente alta
É ténue e quase imperceptível, por vezes
Dura e áspera no fechar da frente branca e luzidia

São pães e rosas e milagres
Que sustentam o tabuleiro da ponte
A que criamos para se atravessar

Se a realidade revolver em tômbola solta mental

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Pássaros

Como animais de jardim zoológico, cantam
Sendo livres, também exploram
Conseguindo voar, tem o seu olhar
Não tem vontade nem problema em esperar

Bichos tristes e seres de alegria!

Ganhar a vida ao mundo

No fulgor do sucesso
Não há tempo para parar a rotação
Acompanha-se com um arfar exasperante
E pontualmente crepita-se uma pequena alegria

As lutas são voltas
E cada volta é um empurrão
Giramos connosco e com o mundo
A cada dia, a cada lua azul, a cada translação